No período de 29 de abril a 03
de maio do ano de 2004, na condição
de empreendedora social da ASHOKA, participei
de evento de orientação
e treinamento para os novos “fellows”
(empreendedores sociais) de futuro. O
evento, patrocinado pelo Instituto Camargo
Corrêa, contou com o apoio do Museu
da Pessoa, cuja dirigente está
entre os seus primeiros empreendedores
sociais no Brasil, e teve como parceiros
estratégicos, as instituições
McKinsey & Company, uma grande firma
internacional de consultoria, e a Hill
& Knowlton.
No dia 03 de maio, ocorreu o evento oficial
“Empreendedores Sociais do Futuro:
ASHOKA 2004”, ocasião em
que foram apresentados à sociedade
em geral, autoridades e imprensa, os empreendedores
sociais selecionados em 2003 e seus respectivos
projetos. Nesse mesmo momento, cada novo
empreendedor social recebeu o certificado
de empreendedor social e foi agraciado
com troféu, representado pela árvore
símbolo da ASHOKA.
Juntamente comigo foram selecionados
mais 19 empreendedores sociais, todos
com projetos sociais belíssimos
e em desenvolvimento nos respectivos domicílios
dos selecionados.
O projeto “Direito do Consumidor
nas Ruas”, da ADECON, surgiu da
constatação de que as classes
sociais menos favorecidas desconhecem
seus direitos, não se sentem seguras
para lutar pelo cumprimento desses direitos
e também não têm conhecimento
dos programas e serviços governamentais
que os defendem, tais como Defensoria
Pública, Promotorias de Defesa
do Consumidor, Procons, Juizados Especiais,
entre outros.
O propósito dessa idéia
é atuar junto a esses indivíduos
inertes e impotentes, através da
educação jurídica,
que lhes permita identificar como proceder
para concretizar seu direito de forma
ativa e participativa. Além da
mudança qualitativa no perfil do
consumidor de baixa renda, que passa da
inércia para a ação,
pretende-se instigar a litigiosidade contida
(conflitos potenciais que não são
levados à Justiça).
Considerando que a ASHOKA só no
Brasil e no Paraguai já selecionou
mais de 240 empreendedores sociais, anteriormente
conhecidos como “fellows”,
e, considerando ainda, que aqui em Pernambuco,
a ASHOKA ainda é bastante desconhecida
da sociedade civil, das autoridades e
mesmo da imprensa, sendo eu muito questionada
sobre o que é essa organização
e o que é que ela faz, resolvi
descrever em poucas palavras qual a sua
missão e quais os seus objetivos,
para tanto utilizando material disponibilizado
no evento para os novos empreendedores
sociais.
A ASHOKA foi fundada por um norte-americano
chamado William Drayton em 1980. Ele ainda
hoje permanece na organização
como presidente e membro de seu Conselho.
A idéia original da ASHOKA tem
suas raízes nas experiências
vividas por Bill Drayton junto ao movimento
pelos direitos civis nos Estados Unidos
na década de 1960 e em suas viagens
para o estrangeiro, quando jovem, sobretudo,
para a Índia. Nessa época,
ele começou a se perguntar como
as desigualdades no mundo poderiam ser
resolvidas e como alguém com poucos
recursos poderia, mesmo assim, fazer diferença.
Graduado em estudos asiáticos
em Harvard, Bill Drayton prosseguiu seus
estudos, formando-se em Direito pela Universidade
de Yale e tornando-se mestre em Economia
pela Universidade de Oxford. Foi professor
de Direito e Administração
na Faculdade de Direito da Universidade
de Stanford e na John F. Kennedy School
of Government da Universidade de Harvard.
Adquiriu também enorme experiência
no setor empresarial como consultor da
McKinsey & Company.
Em 1980, contudo, abandonou uma carreira
promissora, pedindo demissão de
seu cargo de Vice-Presidente Administrativo
da Agência de Proteção
ao Meio Ambiente, e foi atrás do
seu antigo sonho: “criar uma instituição
que apoiaria indivíduos dinâmicos
com idéias inovadoras e, ao mesmo
tempo, práticas, capazes de provocar
mudanças sociais abrangentes”.
Aperfeiçoou esse sonho através
de intensos debates com reconhecidos empreendedores
sociais da Índia, da Indonésia
e da Venezuela e, em seguida, juntamente
com um grupo de colegas (alguns dos quais
são membros do Conselho da Ashoka),
lançaram a ASHOKA: Innovators for
the Public. Os seus primeiros empreendedores
sociais foram selecionados na Índia,
em 1981 e hoje estão espalhados
com sucesso em todo o mundo.
O nome ASHOKA significa “ausência
de tristeza” em sânscrito.
ASHOKA era também o nome de um
imperador indiano da Antiguidade, que
governou durante o século III a.C.
e que é lembrado como um dos maiores
inovadores sociais do mundo. Depois de
uma conquista sangrenta que promoveu a
unificação da Índia,
ASHOKA renunciou à violência
e passou a dedicar sua vida à promoção
do bem-estar social, da justiça
econômica e da tolerância
de todos os credos. O imperador ASHOKA
instituiu serviços de saúde,
lançou um vasto programa de abertura
de poços, construiu alojamentos
para viajantes e plantou milhares de árvores
para fazer sombra nas estradas quentes
e poeirentas da Índia. Seus éditos,
gravados em pilares de pedra em todo o
império, testemunham sua fé
na lei moral como guia para a ação
pública. Os ideais que o inspiraram
na vida madura estão no coração
da Rede, a associação mundial
que hoje tem seu nome.
A ASHOKA, desde 1980, é pioneira
na área de empreendedorismo social,
por criar a primeira organização
global que investe em empreendedores sociais,
e, na opinião de Muhammad Yunus,
fundador do Grameen Bank e membro do Conselho
Mundial da Ashoka, “é uma
organização internacional
extraordinária construída
sobre uma idéia brilhante. Identifica
empreendedores sociais inovadores quando
eles mesmos desconhecem as grandes mudanças
que podem conquistar. Esse é o
momento em que esses empreendedores emergentes
necessitam do maior apoio. A Ashoka ajuda
a reunir empreendedores locais inovadores
para alcançar soluções
globais”.
A ASHOKA define os(as) empreendedores(as)
sociais “como pessoas raras, homens
e mulheres que têm a visão,
a criatividade e a extraordinária
determinação do(a) empreendedor(a)
do setor privado, mas que devotam estas
qualidades a criar novas soluções
para os problemas sociais. Essas pessoas
excepcionais, encontradas em todas as
culturas, conseguem antever o próximo
patamar a ser alcançado em suas
áreas – seja em meio ambiente,
educação, desenvolvimento
comunitário, saúde ou outra
área da necessidade humana. Elas
perseguem incansavelmente sua visão
até ela se tornar concretamente
uma nova realidade.
A ASHOKA conta hoje com mais de 1.400
empreendedores sociais, espalhados por
52 países e tem como missão
“contribuir para criar um setor
social empreendedor, produtivo e globalmente
integrado”. Tendo como um dos seus
valores a ética, recebe em torno
de 500 propostas/ano e seleciona cerca
de 17 empreendedores sociais novos por
ano, para isso utilizando como critérios
para seleção de novos candidatos,
que a pessoa, além de precisar
morar num país em que a ASHOKA
atua, tenha uma idéia inovadora,
com potencial para causar amplo impacto
social; criatividade, em termos de previsão
e solução de problemas;
capacidade de empreendimento (perfil empreendedor);
e intenso sentimento de ética.
A visão da ASHOKA é “propiciar
aos mais avançados empreendedores
sociais do mundo a liberdade e o apoio
de que precisam para suas conquistas,
por entenderem que este é o investimento
de maior impacto e alavancagem que alguém
pode fazer. É, ainda, identificar
e investir em empreendedores sociais para
estimular o lançamento de suas
idéias, a constante inovação
e competência durante toda a sua
carreira. Além do mais, visa colocá-los
numa Rede de Empreendedores Sociais e
contribuir para o crescimento da sustentabilidade
e eficiência das instituições
dos “fellows”.
Nos últimos anos, a ASHOKA compreendeu
que para obtenção de um
maior impacto social, mais importante
do que um empreendedor social isolado
é a reunião de diversos
empreendedores sociais. A partir daí,
passou a estimular que empreendedores
sociais troquem suas metodologias, princípios
e necessidades em seus países,
regiões e no mundo para contribuir
na transformação da sociedade
como um todo. Através de iniciativas
próprias, a ASHOKA passou a desenvolver
modelos para que os empreendedores efetivamente
trabalhem juntos e, ao mesmo tempo, está
difundindo essas lições
para a sociedade civil.
O que faz a ASHOKA ser diferente é
o fato de ser a única organização
que se concentra em empreendedores sociais
inovadores, com base na crença
de que essas pessoas incomuns são
os motores da mudança social. A
ASHOKA apóia essas pessoas individualmente,
mas reconhece de antemão que o
empreendedor social não trabalha
sozinho. Na verdade, quase todos os empreendedores
sociais da ASHOKA criam organizações
para institucionalizar seu trabalho.
Por todas essas razões, estou
orgulhosa de ser uma empreendedora social
da ASHOKA e contar com o apoio da organização
para implementar o projeto Direito do
Consumidor nas Ruas, hoje em franca expansão.
O projeto começou no bairro de
Casa Amarela, mas já está
plantando suas raízes nas comunidades
carentes da Região Metropolitana,
a exemplo de Olinda, onde, a partir deste
ano de 2006, em parceria com a AESO –
Faculdades Integradas Barros Melo, através
do seu projeto “Janela da Cidadania”,
a ADECON passa a desenvolver as idéias
do projeto “Direito do Consumidor
nas Ruas”, junto à população
menos favorecida das comunidades que integram
a Região Metropolitana de Olinda.
E, agora, mais recentemente, em parceria
com a Delegacia do Consumidor e o apoio
da Polícia Civil de Pernambuco,
que disponibilizou um micro-ônibus,
tornou-se possível a concretização
do sonho de fazer o direito do consumidor
nas ruas de forma itinerante, com isso
alcançando um número bem
maior de consumidores e cumprindo a nossa
parte no imenso desafio de democratizar
cada vez mais o acesso à Justiça.